[ENTREVISTA] “Poeta demais para os crentes, crente demais para os poetas”

Eli Abraham é um jovem compositor potiguar, que se propõe a fazer música cristã alternativa e ainda mais diferentona do que uma de suas comidas favoritas: salada com açaí. Recentemente Eli lançou seu primeiro trabalho,o EP Encontro e Convite, com referências ao nórdico europeu, ao mesmo tempo bem abrasileirado,e promete que o que está por vir é ainda mais diferentão. Filho de missionários da Assembléia Deus, Eli nasceu enquanto os pais estavam em missão na Venezuela, em 1998. Desde então a missão faz parte de sua vida, através da música.

Ainda galgando espaço no cenário musical, Eli tem planos de lançar um novo trabalho, diferente de tudo que têm feito até aqui, ainda em 2019. Conheça mais sobre seu trabalho e ministério na entrevista abaixo:

Cristão Diferentão: Desde quando vêm seu envolvimento com a música?

Eli Abraham: Minha família tem muita ligação com a música, meu tio se chama Roberto Luna, ele compõe e tem muitas musicas conhecidas pela galera mais velha, músicas que rodam o Brasil, e também tem uma gravadora. Meus primos também são muito ligados com a música, meu irmão já teve uma banda de hardcore, minha mãe também canta. Na minha casa sempre teve muita música, eu pedia pro meu irmão me colocar para dormir cantando músicas. 

Cristão Diferentão: E a composição como acontece pra você? Seu EP Encontro e Convite é de músicas autorais, não é?

Eli Abraham: Então, sim, eu comecei a compor do nada, em uma madrugada, a primeira música do EP: Arinque. Ela tem muita influência de uma pregação que ouvi sobre Lucas 18, durante o culto em minha igreja, eu sou da igreja Batista Zona Sul. Cheguei em casa e comecei a compor sobre o que tinha ouvido. No outro dia eu já tinha gravado e mandado para algumas pessoas, assim muito despretensioso e as pessoas gostaram muito e já foram compartilhando. Tanto que é discrepante como a galera conhece Arinque, que é a primeira música, bem mais do que as outras. Quando fiz o lançamento do EP as pessoas cantavam as outras musicas, mas quando chegava em Arinque, todo mundo canta em coro, se eu parasse a galera cantava sozinha. 

Cristão Diferentão: Me conta um pouco da história da Arinque.

Eli Abraham: Tenho uma proposta de olhar para as histórias bíblicas e imaginar a cena, o que poderia ter acontecido, sem a proposta de dizer que aquilo é bíblico (dizer que é verdade e aconteceu), mas como arte mesmo. Arinque, fala sobre isso. Em Lucas 18 temos a parábola do jovem rico (18:18) e do mendigo cego (18:35), e ela traz o diálogo, um ponto de vista de cada um, e eu escrevo em nome de cada personagem:

O jovem rico chega pra Jesus se mostrando: “Olha pra mim, vê se em mim falta algo”, e Jesus manda ele vender o que tem é ele fica triste porque percebe que mesmo sendo rico, não tem nada, pois não tem a salvação. Enquanto o mendigo cego chega a Jesus apresentando quem Ele é: “Jesus Filho de Davi“, quando ele diz isso quer dizer que ele sabe a história de Jesus, sabe que ele é o redentor e diz: “sei que em Ti nada me falta“. E ele, que não tinha nada, volta feliz e alegre, cantando porque agora tem tudo. Essa música tem essa proposta de ir pro texto bíblico, mas explorar novos horizontes. 

Cristão Diferentão: De onde veio a ideia do álbum? Era algo que já tinha em mente ou foi sendo construído?

Eli Abraham: Este é meu primeiro EP e tem uma proposta bem diferente do que eu pretendo levar pra vida, porque ele foi meio que o inicio, eu ainda estava me encontrando na minha musicalidade, no meu estilo, não tinha nenhum estudo em música. Foi bem o início mesmo. Ele retrata tanto o início da minha caminhada cristã, como o início da minha caminhada musical, fica bem refletido isso no EP. 

Tenho planos para o próximo ano e tenho medo de surpreender demais porque não terá nada a ver com esse primeiro trabalho, não dizendo que terá uma qualidade muito superior, mas na questão da proposta mesmo, o próximo EP será mais diferentão ainda. As musicas terão ainda mais da minha personalidade.

Cristão Diferentão: Eu sinto uma vibe muito alternativa no seu trabalho, influência indie, mas muito brasileiro. Você pretende seguir nessa linha?

Eli Abraham: Sim, eu acho que o próximo EP terá muito mais disso. Eu fico muito feliz que você tenha falado isso. Uma das minhas vontades, um dos meus sonhos é me parecer mais com as influências que eu tenho, que são: Paulo Nazareth (Crombie) e Marcos Almeida (Palavrantiga). Esses são os que me influenciaram diretamente, na minha música. Mas também tem Estevão Queiroga, João Alexandre (que influenciou mais o mercado em geral é isso chegou até mim), Os arrais -muitas pessoas dizem que o EP parece com Os Arrais.

Cristão Diferentão: Fazer essa música cristã alternativa é um desafio?

Eli Abraham: Sim, inclusive eu estava falando isso com minha namorada ontem, sobre o que eu vou fazer da vida, porque a poesia cristã, pelo menos aqui no Nordeste, ela é muito poética para os crentes e muito crente para os poetas, ela é um negócio que fica no meio termo onde ninguém aproveita, ninguém consome, ninguém adere aquela ideia. Por exemplo, as minhas próximas músicas, acho que quem vai sacar mais são os músicos do que o público em geral.

Cristão Diferentão: Você, assim como suas influências, pretende fazer uma música que não é caracterizada como “música gospel”?

Eli Abraham: Sim, eu pretendo trabalhar academicamente, artisticamente, claro, mas também pretendo estudar e dar aulas de canto, e aí, quem sabe, eu não faça musicas para o contexto acadêmico, para o estudante aproveitar. Também pretendo compôr músicas para outras pessoas cantarem, claro sem fugir da minha realidade, da minha cosmovisão, pois não seria real e provavelmente não seria bom. Eu acredito muito no que Marcos Almeida faz, por exemplo, na música “Sê Valente”, que é tratar a poesia como poesia, onde você pode se jogar, brincar. A diferença de um cara que busca a verdade na bíblia é que (nela) você lê e adere, mas na poesia você se joga, você usa ela, você pode se espelhar. Provavelmente eu farei canções assim, que não falem “Deus”, ou de minha experiência com Deus, mas fale da minha experiência com a vida, como uma parábola: uma história com um ensinamento por trás.

Cristão Diferentão: Faz quanto tempo que você compõe? 

Eli Abraham: Faz mais ou menos um ano e meio que componho. A experiência de compor, para mim, tem um laço forte do relacionamento com Deus, é um negócio bem de Deus mesmo, eu tomei como uma verdade: um lance de fé mesmo. 

Cristão Diferentão: Como sua igreja enxerga seu ministério? Eles também são influenciados por Marcos Almeida, Paulo Nazareth, por Arrais?…

Eli Abraham: Meu pastor me apoia muito, ele comprou a ideia, ele cedeu um tempo para eu lançar o EP. Meu pastor é incrível, nunca vi alguém parecido com ele, tanto no cuidado como no conhecimento, nas leituras, como ele encara o serviço. Meu pastor compõe músicas, a gente sempre conversa sobre gravar uma música junto.

Assim, eles não são influenciados por eles, mas eles conhecem. A minha igreja ela é bem aberta, de mente bem aberta, ou melhor, de mente correta. Ela tem mente de igreja crente. Eles têm um repertório muito amplo, pega Logos, lá atrás, que basicamente era o Palavrantiga de antigamente.

Cristão Diferentão: O que você acha do mercado cristão atual?

Eli Abraham: Uma das minhas missões, e eu quero trabalhar com isso, é resgatar a qualidade pra arte cristã, mais arte pela arte. Porque a partir do momento que a gente não faz isso, só critica e atira pedras. criticar artistas que denigrem a igreja, que denigrem os valores morais, não vai adiantar nada, a gente precisa chegar e tomar o lugar, temos que produzir.

Cristão Diferentão: Quais são suas influências como artista?

Eli Abraham: Na produção desse primeiro EP não existe muito da minha identidade, ela foi meio que uma experiência que deu muito certo. As letras tem minha identidade, mas talvez o resto, as pessoas ainda vão ver como vai ser o futuro, ainda mais brasileiro, posso dizer que vou me encontrar na música, será o meu auge, quando fizer algo com Jazz e Bossa Nova ao mesmo tempo, que são as coisas que eu mais gosto é mais ouço. Minha influência musical são esses dois. Quando a poesia, posição de artista, Marcos Almeida e Paulo Nazareth. Marcos Almeida recentemente veio a Natal e eu tive a oportunidade de fazer uma pergunta pra ele, através da minha namorada, e ele me respondeu algo que ficou marcado: 

“Um artista bom é um artista que depois de uma apresentação, faz com que os artistas em potencial que o viram vão para casa e começam a trabalhar. Artista bom é aquele que convida outros a trabalhar.” E pra mim ele é esse cara. 

Cristão Diferentão: Com qual cantor você gostaria de fazer uma participação?

Eli Abraham: De todos artistas que existem no mundo  que eu tremeria na base pra ter uma conversa que fosse era Marcos Almeida e Paulo Nazareth, eles foram os caras que me encorajaram, mesmo sem querer. Crombie eu conheci quando já tinha acabado, através dos recomendados do spotify, a primeira música foi: já que você veio. Com Palavrantiga foi igual, conheci por Vêm me socorrer, que hoje meu violão toca ela sozinho. Então acho que se um desses dois me chamassem pra cantar com eles eu nem ia rsrs… Ia tremer na base,

Cristão Diferentão: Qual sua música favorita do seu EP?

Eli Abraham: Minha música favorita do Encontro e Convite é Minha Libertação. Ela é a mais parecida com o que eu quero fazer nos próximos, Eu gosto muito de música pra dançar, música ágil. No meu Instagram as vezes lanço trecho das musicas para ver o retorno. 

Cristão Diferentão: Você deixou escapar que uma das suas composições favoritas vai sair no proximo EP, me fala um pouco sobre ela.

Eli Abraham: Poesia que fala sobre rotina. Minha música preferida fala sobre passar sobre a provação, e a maneira com que você passa pela provação ela fala do seu relacionamento com Deus. Ela fala de fatos chatos que acontecem desde a nossa infância, por exemplo, o sorvete que caiu no chão, o balão que voou da mão da criança, coisas simples, e trazendo algo mais profundo por outra perspectiva.

Cristão Diferentão: Quais são seus desafios para o futuro? Dentro e fora da música.

Eli Abraham: Lá na igreja eu sou líder em treinamento e no próximo ano pretendo entrar como líder e meu desafio é ser um ótimo líder, eu quero ter o contato com o pessoal, dedicar tempo as pessoas. Dentro da música pretendo estudar música como graduação. 

2 comentários sobre “[ENTREVISTA] “Poeta demais para os crentes, crente demais para os poetas”

  1. Grande Eli, fico feliz em ver as nossas riquezas culturais se curvando ao Autor da Vida. Parabéns Primo, PARABÉNS pelo Trabalho, dedicação e proficionalismo. Um forte abraço.

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