[ARTIGO] Jesus não é Daltônico

Por Cole Brown (Texto Original: Jesus Is Not Colorblind)

Nota: Utilizamos o termo “Daltônico” para representar pessoas que não conseguem enxergar nossas diferenças de cor/raça. Isso não tem relação direta com o distúrbio visual hereditário caracterizado por uma anomalia na visão das cores, conhecido como daltonismo (definição do dicionário informal).

Se você me encontrasse em meados dos anos 90, durante o meu ensino médio, me veria andando pelos corredores em um brilhante jeans roxo e uma famosa camiseta branca que dizia: “Love Sees No Color (“O Amor não vê cor”, em tradução livre). Felizmente, a moda desta camisa passou rapidamente. Infelizmente, a ideia que o daltonismo é uma virtude, ainda permanece.

Uma mentalidade daltônica contradiz tanto a natureza do Deus que nós adoramos como as escrituras que nos são tão importantes. E ela faz isso de pelo menos seis maneiras:

1. Ser daltônico é estar cego perante a imagem exposta de Deus.

Uma implicação de Gênesis 1:27 é que a imagem de Deus não pode ser totalmente refletida somente por homens ou somente por mulheres, pelo contrário, as qualidades de cada gênero refletem diferentes aspectos de quem Deus é e, quando estão juntas, permitem uma compreensão completa.

O mesmo pode ser dito de nossas diferenças culturais e étnicas. Este é o motivo do Cristianismo conseguir se ajustar a qualquer cultura (pois todas as culturas refletem a imagem de Deus, imperfeitamente) e porque nossa expressão do cristianismo muitas vezes deve ser adaptada quando transferida de uma para outra (entendendo-se que todas culturas reflitam de modo único a imagem de Deus). Assim, ser daltônico é ser intencionalmente cego à imagem de Deus distintamente revelada em cada etnia e cultura.

2. Ser daltônico é ser cego para a identidade do outro.

Nossas etnias e culturas não são acidentais. Elas são parte do soberano plano de Deus para nós. Elas são parte de quem nós somos, nossa identidade. E, como fica claro em Atos 17:26-27, elas também formam nossas experiências de vida, de acordo com as intenções de Deus.

E de um só sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados, e os limites da sua habitação;
Para que buscassem ao Senhor, se porventura, tateando, o pudessem achar; ainda que não está longe de cada um de nós; Atos 17:26,27.

Alguns usam Gálatas 3:28 para argumentar que nossa identidade étnica desaparece uma vez que estamos unidos com Cristo. No entanto, isso evidentemente não é o que Paulo está comunicando, já que ele próprio valorizou tão profundamente sua identidade como um judeu de nascença que escreveu que preferia ser separado de Cristo do que ver “meu povo, os que são da minha raça”, sem Cristo. (Romanos 9:2-4).

Quando alguém diz à uma pessoa de outra etnia: “eu não vejo cor”, é como se ela estivesse dizendo: “eu não vejo aquela parte de você que é incrivelmente importante para você e sua cultura, a história da sua família, sua experiência de vida, e sua identidade pessoal.” Isso é equivalente a dizer “eu não vejo você”- intencionalmente ou não.

3. Ser Daltônico é ser cego para o poder unificador do evangelho.

É irônico que tantos de nós querem evitar enxergar nossas diferenças, quando Deus demonstra importância em chamar atenção para nossas diferenças. Gálatas 3:28, Efésios 2:14-16, Apocalipse 5:9 e Apocalipse 7:9 são apenas algumas das passagens em que Deus chama atenção para as diferenças étnicas e culturais a fim de demonstrar o poder unificador de Cristo e do seu evangelho.

Nós não somos iguais.

Nós somos diferentes.

E é isso que faz nossa união em Cristo muito mais gloriosa.

Um dos motivos pelos quais o daltonismo é atraente, é porque parte de nós acredita que a base para unidade é a similaridade. Mas não é.  A base para nossa união é Cristo. Nossas diferenças não negam esta verdade, elas a ampliam.

Se você não percebe as diferentes notas musicais, você não consegue ouvir a beleza da harmonia quando elas são artisticamente tocadas juntas. Do mesmo modo, se você não nota as diferenças em nossas etnias, você não consegue contemplar a beleza do evangelho quando diferentes etnias são poderosamente reunidas.

4. Ser Daltônico é ser cego para a injustiça.

Deus é justo. Isso não significa que ele está empenhado somente em julgar de forma justa aqueles que cometem injustiça (embora Ele esteja), isso também quer dizer que Ele está atento àqueles que sofrem injustiça. Ele se faz presente com eles em suas dores. Em passagens semelhantes, de Salmos 146 e Amós 5:21-24, vemos que Deus concede favor especial para aqueles que a sociedade maltrata.

Como pessoas criadas à Imagem d’Ele, temos que refletir as mesmas qualidades. Claro, milhões de Cristãos levam esse chamado seriamente e estão empenhados em combater injustiças como o tráfico sexual, aborto, e questões relacionadas com os sem-teto.

Isso é bom. Mas não é bom o suficiente.

Pois, se nós formos daltônicos, por definição seremos incapazes de enxergar a injustiça por toda a parte onde ela resida. Nós não iremos notar que certos grupos são policiados, julgados ou presos, de forma diferente; nem iremos  ver a correlação entre a cor da pele e quais bairros, empresas e pessoas nossos bancos, agencias imobiliárias ou governos, estrategicamente escolhem investir ou não investir; nem iremos notar as discrepâncias na educação pública e nas oportunidades de emprego que resultam disso. Enxergar as disparidades entre grupos raciais nos obriga a realmente ver cor.

5. Ser daltônico é ser incapaz de combater injustiças.

Um vez que o racismo é reconhecido, requer-se uma solução que também seja baseada em raça. Apenas estratégias conscientes em relação a cor, e não estratégias daltônicas (que não diferenciam cor), conseguirão afetar com sucesso as desigualdades baseadas na raça e cor.

Este é certamente o modelo que nós vemos em Atos 6:1-7. Embora as categorias de raça como conhecemos não tinham sido inventadas ainda, a igreja primitiva passou por situação semelhante, nos dando noção sobre como os cristãos podem lidar com injustiça racial contemporânea. A divisão era baseada nas categorias culturais: Hebreus e Judeus Helenístas. Os judeus helenístas observavam que as viúvas hebreias estavam recebendo da igreja o suporte financeiro necessário, enquanto as suas viúvas não estavam. Os helenístas estavam sendo negligenciados apesar do fato de contribuírem para a igreja assim como os Hebreus.

Os apóstolos não conseguiam responder à essa injustiça com uma solução culturalmente cega (ou, para nossos propósitos, daltônica). Eles nomearam sete homens cheios do Espirito para assegurar que ambos os grupos receberiam recursos equitativos. E, ainda assim, eles não selecionaram aleatoriamente qualquer homem cheio do espírito. Eles intencionalmente escolheram sete homens cheios do Espírito que também fossem Judeus Helenístas. Com certeza, haviam Hebreus cheios do Espirito Santo que pudessem realizar aquele trabalho. Ainda assim, os apóstolos escolheram uma perspectiva consciente da cor e raça, para confrontar a injustiça. Eles fizeram isso para trazer justiça onde havia injustiça, garantindo não apenas que as viúvas helenístas receberiam o mesmo suporte que as dos hebreus, mas também que a comunidade Helenísta como um todo teria poder e influência dentro da Igreja.

6. Ser daltônico é ser um missionário ineficiente.

Prestar atenção nas categorias de etnia e cultura é a chave para ser um missionário útil. Paulo descreve isso na famosa passagem de 1 Coríntios 9:19-23, na qual ele explica que tornou-se Judeu para os judeus, e um sem lei para aqueles sem lei, para “por todos os meios chegar a salvar alguns.” A distinção entre os judeus de nascença e aqueles que não estavam debaixo da lei não era meramente religiosa, era também étnica. Aqueles “que não tinham a lei” eram gentios, uma categoria étnica genérica para aqueles que não eram judeus de nascença.

Assim, debaixo da inspiração do Espirito Santo, Paulo está dizendo que ele não apenas nota as diferenças étnicas, mas também que aquelas diferenças indicadas guiam sua ministração do evangelho para cada respectivo grupo. Isso não é racismo. Isso é exatamente o oposto de racismo. Paulo valoriza tanto aqueles que são de outras etnias e reconhece tanto a sua identidade única que, de bom grado, deixa de lado sua própria identidade para fazer a mensagem compreensível e cativante para aqueles que não são como ele.

Há apenas uma alternativa para essa abordagem. Se nós não procuramos nos adaptar àqueles que não são como nós para assegurar o entendimento do evangelho, nós exigiremos que os outros se adaptem a nós para ouvir o evangelho. É nítido qual abordagem reflete com mais precisão a imagem de Deus, que colocou de lado seus privilégios e veio para aqueles que eram diferentes d’Ele.

A camiseta que eu usava nos anos 90 dizia “Love Sees No Color”, mas nossa bíblia diz exatamente o oposto. vamos amar da maneira que nosso salvador, que rompe barreiras, nos ama.

 

Texto Original: https://www.thegospelcoalition.org/article/jesus-isnt-colorblind/

Tradução: Vinicius Castro. |  Revisão: Mayra Moraes.

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